domingo, 17 de fevereiro de 2013


Além das bananeiras


Quando eu era pequena, havia um terreno baldio em frente à minha casa cheio de bananeiras. Lembro que, por vezes, nas tardes mais solitárias eu gastava um tempo olhando em direção à elas e pensando nas mais variadas coisas, lembro que a maior parte dessas coisas remetia ao futuro, o que eu haveria ainda de viver, quais os lugares que haveria de visitar, mas principalmente quais os mundos que eu ainda iria conhecer. Algo dentro de mim me dizia que a pequena cidade onde morava, o meu atual mínimo mundo, um dia daria lugar a um vasto e amplo, em outro lugar e, apesar de não saber que lugar era esse, sabia que era distante dali. O tempo passou, mudei daquela casa, deixei aquela paisagem, a paisagem das bananeiras, deixei também de pensar tão profundamente nas coisas que pensava quando as contemplava. Segui minha vida e hoje, após longos e, ao mesmo tempo, curtos 8 meses nos Estados Unidos, prestes a voltar para casa, um momento ímpar, que há muito não ocorria, aconteceu. Hoje, ao levar o lixo para fora, escutando “Breaking the girl” de Red Hot Chili Peppers, um filme passou na minha cabeça, vislumbrei novamente as bananeiras e a grande interrogação que pairava naquele tempo sobre os desafios e as terras desconhecidas que eu ainda havia de desbravar. Após esse flashback, eis que outro filme estrela no âmbito dos meus pensamentos, cada momento feliz que vivi aqui, cada amigo, cada festa, cada situação divertida, a viagem que fiz para outros estados daqui (a qual ainda pretendo contar os detalhes aqui no blog), uma verdadeira “viagem dos sonhos”... De repente senti que a minha interrogação tinha sua resposta. Estar nos EUA fazendo intercâmbio, experimentando culturas diferentes, sabores diferentes, interações diferentes, estar vivendo em um mundo vasto, amplo, muito diferente do meu mínimo mundinho. Longe da tropicalidade das bananeiras e sentindo o vento gelado de um dia ensolarado (o que na minha cabeça antes não fazia sentido algum). Acabei de chegar da última missa aqui antes de partir pro Brasil e aquele sentimento genuíno de saudade de tudo e de todos antes mesmo de ir embora, o qual senti antes de vir para cá, e que nunca pensei sentir novamente, surge. As coisas aqui já não são mais as mesmas desde que cheguei: a plantação de milho que existia em um certo ponto da rua onde moro já não está mais lá, o cheiro da casa já não é mais o mesmo, o sabor da comida americana também já não é o mesmo de 8 meses atrás, os sonhos já não são mais os mesmos também, uma vez que se realizaram e deram lugar a outros novos, o simples ato de ir ao laboratório mudou, já não saio de casa como quem tem medo de que o mundo possa me engolir viva, agora o caminho para lá é conhecido, e cotidiano, fiz dele minha segunda casa aqui, ou devo dizer primeira? É onde encontro meus amigos, ou melhor, meus irmãos e minhas irmãs (não poderia morrer sem conhecê-los, ou meu mundo nunca seria o mesmo, nunca seria tão cheio de riqueza), desde 8 meses atrás o calor infernal se tranformou em um clima agradável de outono e depois converteu-se em um frio mais infernal ainda no inverno. E por último, mas não menos importante, pelo contrário: noto que ao passar para o lado de lá das bananeiras a menina que as contemplava também mudou, mas ainda é a mesma. Como isso é possível? Mudou em termos de fragilidade, de dependência, de medos, hoje isso tudo está diferente! Mas a essência ainda está lá, bem presente. Agora ela sabe o que há além das bananeiras. Ela foi... E conheceu... E sofreu... E venceu.

"I don't know what, when or why
The twilight of love had arrived”
(Breaking the girl – Red Hot Chili Peppers)

When I was younger, there was a vacant lot in front of my house full of banana trees. I remember that sometimes in the afternoons I spent my loneliest time looking toward them and thinking of a lot of things, also remember that most of these things were about the future, what I would live, what places I would visit, but mostly what worlds I would know. Something inside used to tell me that the small town where I lived, my current minimum world one day would give rise to a broad and wide one, in somewhere and, despite not knowing where this place was, I knew it would be far away. Time passed, I moved out of that house, I left that landscape, the landscape of banana trees, also left the deep thoughts I had when I looked at them. I followed my life and today, after long and, at the same time, short eight months in the United States, just about to go home, a unique moment, one that I had not felt for a long, happened. Today, when I was taking the garbage out, listening to "Breaking the Girl" of Red Hot Chili Peppers, a movie started in my head, I glimpsed again the banana trees and the big question mark that hung at the time about the challenges and the unknown lands that I still had to explore. After this flashback, another movie started under my thoughts, every happy moment that I lived here, every friend, every party, every situation fun, the trip I made from here to other states (which I still intend to tell the details about here in this blog), a true "dream trip" ... Suddenly I felt that my question had its answer. Be interchanging in the U.S., experiencing different cultures, different flavors, different interactions, living in a wide and broad world, very different from my own little world. Far from the tropicality of banana trees and feeling the chill wind of a sunny day (which in my head made no sense sometime before). I just arrived from my last Mass here before leaving to Brazil and that genuine feeling of nostalgia for everything and everyone before they leave, which I felt before coming here, and I never thought to feel again arises. Things here are no longer the same since I arrived: a cornfield that existed at a certain point of the street where I live is no longer there, the smell of the house is no longer the same, the taste of American food also is no longer the same 8 months ago, the dreams are no longer the same as well, since they performed and gave way to new ones, the simple act of going to the lab changed, no longer leave the house as if I'm afraid that the world would swallow me alive, now the path is known, I made it my second home here, or should I say first? It's where I find my friends, or rather, my brothers and sisters (could not die without knowing them, or my world would never be the same, never be so full of wealth) since 8 months ago hellish heat has transformed into a pleasant weather of autumn and then became even more hellish cold in winter. And last but not least, on the contrary: I notice that when I move to the other side of the banana trees, that girl who looked to them also changed, but is still the same. How is this possible? Changed in terms of frailty, dependency, fears, now that everything is different! But the essence is still there, very present. Now she knows what is beyond the banana trees. She went... And knew ... And suffered ... And won.





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4 comentários:

Raphaella Resende disse...

Simplesmente emocionante, traduz um pouco do que sinto. Desejo um retorno incrível para o Brasil e que venham mais sonhos para serem realizados. :*

Luana Francisleyde disse...

Que lindo!!!! Estou emocionada, Lusi. Você sempre me deixa assim com esses textos que são, na verdade, um extravasamento de emoções no último grau. Sabemos que a menina cresceu, acompanhamos esse crescimento, mesmo distante, compartilhamos muitas sensações, alegrias, dessabores, conquistas. Nosso amor por você aumenta a cada dia, Nega. Te amamos!!!

vanusa ferreira disse...

Muito lindo, emocionante!
Parabéns Lusi, vc merece todas as vitórias!

Lusiana Farias disse...

Obrigada, gente. Fico muito feliz por apreciarem e se identificarem com o texto. Espero que isso ocorra cada vez mais! Obrigada :)

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